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A voz das mulheres bordada em arpilleras

September 19, 2017

 

Em curso realizado no Espaço Migrantes, mulheres vivenciaram a luta das mulheres chilenas durante a ditadura.

 

A arpillera é uma técnica chilena de bordado e costura sobre pedaços de sacos de juta que tem suas origens nas bordadeiras de Isla Negra, no litoral chileno. Essa prática ganhou conhecimento mundial primeiramente graças aos trabalhos da cantora e artista plástica Violeta Parra e durante a ditadura chilena (1973-1990), quando desempenhavam um papel social e político. Em entrevista, Violeta Parra afirmava que as mulheres arpilleras “bordavam o que não podia ser dito em palavras”.

 

Inicialmente as mulheres chilenas bordavam as arpillera para fins terapêuticos em oficinas apoiadas pela igreja católica. Muitas delas tinham perdido filhos, maridos e irmãos para a violência do governo militar. Os temas das arpilleras tratavam da vida cotidiana, da afirmação de identidade, de valores da comunidade e de problemas políticos, como a violação dos direitos humanos.

 

As chilenas, para denunciar as violências cometidas pela ditadura chilena, usavam retalhos das roupas dos parentes desaparecidos e escondiam embaixo dos pedaços de pano o nome dessas pessoas, pois algumas arpilleras chegavam a ser vendidas para Europa. As arpilleras foram usadas como instrumento de comunicação com a Anistia Internacional e pôde salvar vidas.

 

Nos anos 80, o governo chileno descobriu e chamou a prática de “tapeçarias difamantes” e “tecidos com conteúdo antichileno”.“Graças às arpilleras, muitas mulheres chilenas puderam denunciar e enfrentar a ditadura desde fins de 1973. As arpilleras mostravam o que realmente estava acontecendo nas suas vidas, constituindo expressões da tenacidade e da força com que elas levavam adiante a luta pela verdade e pela justiça. Além disso, cada uma destas obras pôde quebrar o código de silêncio imposto pela situação então vivida no país. Hoje, são testemunho vivo e presente e uma contribuição à memória histórica do Chile”, explica Roberta Bacic, curadora da exposição“Arpilleras da resistência política Chilena”, que ocorreu em São Paulo em 2015.

 

Magia das arpilleras

 

Os Cursos de Arpilleras foram formados como parte de um projeto de empoderamento de mulheres migrantes, criado em 2009, por um grupo de migrantes chilenas. Desde então, a experiência estendeu-se em diversas oficinas com diversas comunidades ao longo destes 8 anos. Produtos das quais contamos com obras que estão no acervo do Museu da Imigração,assim como em diversas exposições em Museus e galerias de São Paulo e do Brasil.

 

No dia 2 de setembro, a Presença da América Latina – PAL promoveu um novo curso gratuito de arpilleras em parceria com o Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante –CDHIC cerca de 20 mulheres puderam reviver a experiência das mulheres chilenas. Nesta ocasião, as componentes da PAL Ines Del Carmen Fuentes Gonzalez, a realizadora desta soficinas, e Oriana Jara proporcionaram o curso da arte da arpillera. Esse contou com a presença cerca de 20 grandes mulheres provindas de diferentes comunidades, que puderam reviver a experiência das mulheres chilenas e que em conjunto favoreceram um ambiente agradável de compartilha de histórias e de empoderamento feminino.

 

Para a confecção das arpilleras, as participantes foram dividias em dois grupos. Cada grupo era inspirado por uma canção de Violeta Parra: Volver a los 17, de 1962, e Gracias a la Vida, de 1966. Violeta chegou a afirmar que as arpilleras são “como canções que se pintam”. Oriana explicou que a arpillera é própria do mundo uterino da mulher e de empoderamento feminino. “Existe uma mágica no fazer arpilleras”, diz.

 

Ao fim do dia, as participantes puderam compartilhar o aprendizado e experiências. Ana André, migrante de Portugal, ficou muito grata pelo curso. “Foi maravilhoso, eu sempre quis participar! E, hoje, isso trouxe lembranças de minha adolescência, violências e discriminações que vivenciei. Pude falar da minha conexão com a natureza e o sentido que isso me traz”,relatou.

 

Hoje em dia, a arpillera é retomada nos mais diferentes contextos e lugares do mundo,representando a transformação do fazer coletivo forte e poderoso; símbolo do protagonismo feminino como uma forma resistência e denúncia.

 

Violeta Parra

 

O trabalho de descobrir e promover o folclore chileno realizado por Violeta Parra não se restringiu apenas à música. Acredita-se que o trabalho dela com as arpilleras tenha começado em um momento de convalescença causada por uma hepatite. No entanto, esse trabalho foi uma forma de linguagem criada por Violeta para transmitir histórias, sentimento e sonhos dos povos oprimidos.Em abril de 1964, Violeta pôde expor no Pavilhão Marsan do Museu de Artes Decorativas do Palácio do Louvre, em Paris, uma série de arpilleras e esculturas de serapilheira, óleo e arame.A exposição levou o nome de “Tapeçaria de Violeta Parra” e foi a primeira vez que uma artista hispano-americana ganhou espaço no museu.

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